As sim sim. Mais umha geraçom de silenciadas.

cientistaMuito se escuta, ou se escutava, quando fazia algo mais que trabalhar, nos meios falar dos ni-ni. Aqueles que nem estudam nem trabalham, vamos que som umhos ‘vagos y maleantes’.

Mas eu do que quero falar e da minha geraçom e da parte que conheço. Da que nom se fala, da que nom interessa. Ao fim e ao cabo, os ni-ni som os exemplos perfeitos para criar a consciência colectiva de que se nom tens trabalho é culpa tua. Cada geraçom tem as suas lutas e os seus problemas particulares comentou um dia um senhor ao que admiro e respeito. E desses problemas quero falar, da gente que temos entre vinteoito e trinta e cinco anos, concretamente, das mulheres. O produto das bebedeiras e ressacas da transiçom.

Somos as licenciadas em biologia, filólogas, psicólogas, físicas, engenheiras, matemáticas, historiadoras da arte que estudamos, fizemos mestrados, másteres, incluso doutoramentos, aprendimos inglês, francês e algumhas até occitano e hoje trabalhamos em hotelaria sem contrato, damos aulas ás filhas da gente de mais de quarenta de passo que lhes limpamos a casa (também sem contrato) dessa mesma gente que tive aberta a bilha do estado de bem-estar, até que fechou. E fechou justo em nós. Nós entanto, estávamos, como nos correspondia e nos queriam, bem entretidas assegurando-nos um futuro que já nunca nos prometeram fácil, provavelmente fóra das lutas estudantis e também seguramente infantilizadas, mas sendo guiadinhas (nos estudos, mas aproveitando para explorar todo o que podiamos e até aí quero falar) para poder alcançar num futuro, umha realizaçom profissional ás que sabiamente nos encorajaram pais e maes e conquerir umha independência económica que nos faria um bocado mais livres para nom ter que aturar maridos que nom queremos, nem tratos que nom desejamos.

Mas esse futuro é hoje. E a realidade é outra. A precariedade é asobalhante. Nem oposiçons, nem bolsas de doutoramento, nem postos públicos nem privados. Cada pouco, fazemos umha despedida, esta vez, dumha incrível amiga, pessoa inteligente, culta, filósofa licenciada, sensível, com um mestrado, que marcha, cara a sudamérica procurar um futuro. Há dous anos, engenheira naval que marcha para Escócia, a ver se alí pode desenhar barcos, sim, como o grande engenheiro do Titanic, mas dos que nom afundem. Há cinco anos, umha engenheira química que marchou a implementar colunas de carbono a Holanda. Temos pedaços de coraçom espalhados polo mundo.

As que ficamos, ficamos em precário, pensando se deveríamos marchar, as que marcham, marcham pensando se deveriam ficar e quando nos atopamos, só desejaríamos mudar-nos pola outra pessoa para saber se a decissom foi a correta. Outras vezes, toca socorrer a aquela amiga que nom da atopado trabalho, e anda meio a pensar que é por culpa súa (si.. isso da culpa e o neoliberalismo e o patriarcado que bem se alinham) e anda a olhar para o passado, a ver onde se equivocou. O da culpa é algo que temos que agradecer ao cristianismo de por vida. A estas alturas, já tenho escuitado de todas. Há culpas para todos os gostos: culpa de ter rejeitado a bolsa de doutoramento, de te-la aceitado, culpa de estudar ciências (se total ninguém nos fai caso), culpa de ter estudado letras, de nom ter estudado mais, de nom ter estudado menos…

O patriarcado mais reaccionário deu os postos de trabalho a algúns dos nossos companheiros geracionais, nom nos enganemos, aqueles que ‘melhores’ contatos tinham e a nós já nos andam a perguntar que para quando vamos ter o filho; nom se nos vaia ocorrer rebelar-nos e dizer: até aquí, nem mais trabalho sem contrato, nem mais precariedade, nem mais emigraçom, nem filhxs que nom nos podemos permitir.

Hoje dou aulas a filhxs de pais e nais muito preocupadas pola importância do inglês; e se bem empatiço completamente com a sua preocupaçom, para os meus adentros nom posso deixar esboçar um sorriso de resignaçom; e pensar que si, lhes será útil quando tenham que emigrar, (aínda que a necessidade fai milagres, que lho perguntem á geraçom dos meus pais que aprendeu alemam e italiano na Suíça) se nom conseguimos mudar com urgência o nosso rumo. Copiámos o sonho americano e esquecemos a luta de classes…Eis aquí o resultado. Será hora de lembrar o esquecido?

Isabel S. Vijande
Engenheira Química em Centro de Estudos Espiral
Engenheira química com DEA e Mestrado em Educaçom. De experiência militante na defesa da terra com Verdegaia e na defesa da língua com a criaçom das Escolas de Ensino Galego Semente. Feminista e co-fundadora do Centro de Estudos Espiral. Biografia completa e currículo.

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